
Fotografa eu, moço
Por SextaSessão*
O nome da festa era Perversion e eu disse “vamunessa, gentí”. Bastou dar o alerta para que grupo que antes tinha prometido me acompanhar se evadisse. Adultos, vividos, abertos, versáteis. Subitamente perderam a coragem de ir ao convescote por conta do nome.
Então, na tarde que antecedia a dita, me vi sozinha, pronta pra desistir. Até que uma amiga contou ter conhecido um fotógrafo inglês no carnaval de Nothing Hill, que poderia topar.
Encontrei o sujeito na estação de metrô Vauxhall e seguimos pra bocada. Tentando não me diferenciar muito dos frequentadores, me vesti de preto e exagerei na maquiagem dos olhos – jurando que parecia uma mulher malvada. O fotógrafo, um nativo que nunca tinha ido a festa fetichista, parecia um pregador mórmon. Depois do staff e do “elenco”, fomos os primeiros a entrar.
Ele começou fotografando as dançarinas dos postes – que não tiravam as roupas – e eu encostei ao lado de uma das gaiolas, observando a fauna e batendo um papo com as engaioladas.

so sexy, so sweaty
- Não agüento mais este espartilho.
- O que é isso, látex?
- Não sei, é sintético. Estou suando.
- Então tira.
- Tá louca? Com esse bando de tarado aqui?
- Tem razão. Não tira.
Houve um espetáculo com duas garotas. Uma fazia o tipo Mônica-Belucci-tuberculosa e estava “fantasiada” de lobo (calcinha e sutiã de pele). A outra, uma ruiva rechonchuda, era chapeuzinho vermelho. A encenação simulava um estupro da segunda pela primeira com um pênis de vidro. Bem ensaiadinho. Tinha até sangue artificial.

Chapeuzinho sucumbe à fúria da loba má
Em outra sala, uma ”performer” de maiô preto foi pendurada com pernas abertas. Marmanjada ia lá, metia a cara e lambia a saliva do sujeito que tinha babado antes. Dignificante. O único homem bonito da noite participou entusiasmado da atividade, antes de abocanhar – e ser rejeitado com um empurrãozinho – a nuca de uma gorda enorme vestida de anáguas brancas.

Tô bem sim, só não sinto mais as pernas
Ao palco, subiu uma menina com piercings cravados no colo e na testa, lentes de contato brancas e cabeça raspada, exceto pela duas tranças longas saindo do topo do côco. Fez uma dança que, imagino, era para ser sexy, mas me botou medo, pela música, pelos adereços que brilhavam no escuro e pelo remelexo.
Único ato S&M foi um cara de chapéu de caubói bater com um chicotinho de tecido nos seios da acompanhante. Uma menina com óculos e jeito de estudante de sociologia. Bateu fraco. Ela riu.

Bate que eu goshto
Ao sair, me despedi da hostess, empoleirada em um inacreditável par de botas de salto agulha e espremida num vestido de látex simulando um uniforme militar:
- Já vão?
- Vamos. A gente só veio tirar umas fotos e conhecer.
- Sorte a sua. Eu, infelizmente, ainda tenho que ficar muitas horas.
Sem metrô naquele horário, tinha que voltar de ônibus. A minha linha passava do outro lado da avenida que a condução do Chris. Ele, como bom inglês, não fazia qualquer gesto de gentileza para uma mulher. Nos despedimos e segui sozinha.
À minha parada de ônibus, chegaram dois garotos. Apesar do vestuário full black e expressões de malvados, pareciam babacas inofensivos. Ruivo, rosado e de calças de couro pretas, o mais velho começou a conversa.
- O que uma jovem faz sozinha em Vauxhall a esta hora?
- Saí de uma festa. Vou pra casa.
- Você aproveitou?
- Não muito.
- Onde foi a festa?
- No clube Supreme.
- Como não vi você? A gente também estava lá! Fomos para conhecer. Vamos tocar na próxima Perversion.
- A é? Vocês tem uma banda?
- Temos. Die pretty.
- Legal.
- Prazer em conhecer. Eu sou Regan. Esse é o Serguey.
- Prazer em conhecer. Sou Sexta.
- De onde você é? Eu sou da Nova Zelândia, e ele é russo.
- Brasil.
- Sei falar uma frase em espanhol. Quer ouvir? “Quieres hacer el amor conmigo esta noche?”
- Legal. Mas não entendo. No Brasil a gente fala português.

*SextaSessão não bate nem apanha, mas encontrou as fotos do Chris no pen drive e lembrou do evento. Chicoteia o bom-senso aqui nas sextas-feiras e espanca a prudência nos outros dias em seu blog.